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Archive for the ‘Psicanálise’ Category


Sempre que eu saio por aí, pronta para falar de psicanálise e esporte, alguém pergunta: mas você é psicóloga? Não, não sou psicóloga, não sou psiquiatra, não sou psicoterapeuta. Existem muitos “psicos” espalhados por aí: a psicobiologia, a psicoacústica, a psicofarmacologia, a psicocinese, a psicofísica, a psicocultura, a psicografia, o psicodélico, a psicodinâmica, o psicodrama, a psicofisiologia, a psicogenia, a psicognosia, a psicolingüística, a psicomancia, a psicomotricidade; os que eu me lembro de memória. Eu mesma, sou bacharel em Educação Física e a psicanálise é, para mim, um embasamento epistemológico.

Para citar nomes, a Educação conta com uma obra vasta do Rubem Alves. Nem todos o associam à psicanálise, mas basta pegar uma de suas crônicas publicadas nos jornais de Campinas, ou um de seus livros para entender o quê, epistemologicamente, eu estou querendo dizer. Tostão – sim, o jogador de futebol e crônista esportivo – formou-se em medicina e até chegou a fazer formação em psicanálise. Ele não se julga psicanalista, mas ela está lá, no pano de fundo de seus textos, no pano de fundo do seu jeito de ver o mundo, e o futebol.

Epistemologia (segundo Houaiss): 1. reflexão geral em torno da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, especialmente nas relações que se estabelecem entre o sujeito indagativo e o objeto inerente. 2. estudo dos postulados, conclusões e métodos dos diferentes ramos do saber científico, ou das teorias e práticas em geral.

Psicanálise: a base epistemológica do “meu” esporte. Ou melhor, das minhas reflexões sobre o esporte.

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Eu sempre brinco que a psicanálise, de fato, não é ciência. É um jeito de ver o mundo. No Brasil, a psicanálise ganhou foco junto com os modernistas na Semana de 22. Chegou com a literatura, o que faz todo um sentido já que ela, como as letras, depende da linguagem. Também a psicanálise depende de ser letra. Fonema, som, inconsciente. Recordada a afirmação de Freud de que tudo depende da linguagem, Lacan vai mais longe ao dizer que o próprio inconsciente é estruturado como tal. Língua. Alíngua. O fato é que fala-se em nome de um sujeito (do inconsciente) e não em nome das teorias desenvolvimentistas. E esta é a maior contribuição da psicanálise ao esporte, na medida em que este novo olhar sobre o sujeito traz à baila não apenas um corpo biológico que realiza ações esportivas, mas também um corpo pulsional, que deseja.

Freud vai dizer que o conjunto da atividade psíquica tem por objetivo a busca do prazer e a fuga ao desprazer, sendo que disso resulta que todas as representações associadas às lembranças de experiências desagradáveis tendem a se excluírem do plano da consciência. Assim, no que tange ao esporte, a psicanálise, diferindo-se das teorias desenvolvimentistas, privilegia não a repetição de gestos técnicos, mas a repetição do inconsciente, enfatizando, principalmente as questões relativas ao desejo e ao prazer como princípios que constituem o sujeito e que, por fim, influencia a prática esportiva.

O que se pode tirar disso, é que o inconsciente (estruturado enquanto linguagem) se repete e se traduz num modo de ser do sujeito. É, pois, a janela por onde ele vê o mundo. No esporte esta repetição também se manifesta, e de forma involuntária. É aí que se pode vislumbrar a máxima da psicanálise no esporte, no fato de que o sujeito, no caso o atleta, só pode se dar conta de um fato quando ele é falado. Novamente a questão da linguagem.

Sempre que um sujeito fala, há um outro que o escuta. E é por este outro, também, que o corpo existe em psicanálise, no sentido dele ser habitado pela linguagem – e uma das contribuições básicas de Lacan refere-se ao processo da passagem da criança do reino animal para o reino humano, passagem esta que se efetua pela instauração da ordem simbólica, a se definir como formalmente igual à ordem da linguagem. É justamente através da aquisição da linguagem que as experiências corporais tornam-se significativas, codificam e se estruturam. Um atleta, por exemplo, precisa reconhecer aquele corpo como sendo seu corpo, e ele só poderá faze-lo através da linguagem, ou seja: estas pernas longas e finas me pertencem, este sou eu; nomeação que se traduz em representações simbólicas.

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