RAMIREZ, F.
UM PSICANALISTA NO FUTEBOL: COMO A CIÊNCIA TRANSFORMA OS JOGADORES DE SUJEITOS EM OBJETOS (Resenha do texo O futebol que driblou o sujeito e emplacou o objeto).
In: Universidade do Futebol. Digital. 2008.
“De fato, o futebol brasileiro tem de tudo, menos seu psicanalista. Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador. E, no entanto, vamos e venhamos: já é tempo de atribuir-se ao craque uma alma, que talvez seja precária, talvez perecível, mas que é incontestável”. Nelson Rodrigues.
Nelson Rodrigues, no período considerado como sendo a “época de ouro” do futebol brasileiro, em uma de suas crônicas anuncia que o atleta tem uma alma que deve ser levada em consideração. O fato é que existe uma alma distinta do corpo, princípio de vida e considerada como um sistema de referência ou base das representações psíquicas, da ação e do comportamento. Uma alma que sente prazer ou desprazer.
Que traz um sujeito dotado de um inconsciente e que, portanto, deseja. É isso que lhe dá vida, sua psique. E quando ela é ignorada, corre-se o risco de se obter um apagamento do atleta. Este então é escamoteado, fica encoberto pelos desejos da comissão técnica, dos dirigentes esportivos, da mídia e até mesmo da torcida.
Desta forma, o jogador não é mais do que um indivíduo que responde às demandas de outros. Ele deixa de ser sujeito para tornar-se objeto.
Também a ciência o coloca em nível de objeto, de estudo e laboratório. Nesta perspectiva, o treinamento esportivo tende a encará-lo como um ser que se encaixa nas teorias desenvolvimentistas e organicistas que privilegiam, sobretudo, em se tratando das categorias de base, o crescimento físico e a maturação. Ou, no treinamento de alto rendimento, os padrões fisiológicos e comportamentais relacionados nas preparações física, técnica e tática; onde os protocolos tendem a prender o atleta, deixando-o reduzido e à mercê de um determinado autor, teoria ou época.
Não é só a esta condição que o atleta tem que responder, mas a toda uma sociedade capitalista que dita a lei maior do futebol. Quando a ciência entra em campo a seu favor, o atleta é alvo da comissão técnica, da preparação física, da medicina esportiva, da fisiologia, da biomecânica e etc. Todos detêm um saber de como transformá-lo em vencedor.
Neste ponto é possível vendê-lo, alargá-lo, diminuí-lo enquanto sujeito, pouco lhe é permitido e seu desejo quase não é notado. O atleta sempre esteve submetido ao Outro na história do futebol e nem sempre sua condição de sujeito é, ou foi, valorizada. Ele só será reconhecido como um sujeito que deseja e que tem um jogar que lhe é característico quando deixar de ocupar, por exemplo, o lugar de quem responde às demandas estabelecidas pelos dirigentes, comissão técnica, torcida, mídia e etc.; o que nem sempre é possível.
A questão que isso suscita está em torno dos lugares que o atleta assume neste sistema: de onde ele se coloca e aonde ele se deixa colocar. Verifica-se que no futebol há uma multiplicidade de relações: atleta e comissão-técnica, atleta e diretoria; atleta e clube; atleta e torcida; atleta e mídia; entre outros.
Enfim, há uma rede de relacionamentos na qual cada sujeito ocupa determinada posição em relação ao outro. Nessa trama de relações evidencia-se um mal-estar: o mal-estar na civilização, o mal-estar nos laços sociais. Assim, o futebol é hoje, mais do que nunca, um produto do capitalismo com os laços sociais.
A corrida pela maestria esportiva, hoje, encontra-se impulsionada pela lei que regula um mercado ferozmente competitivo; sendo que é esta “lei” que dita as linhas de pesquisa científica a serem seguidas, porque é ela quem as financia; é a lei que se inscreve nos currículos dos técnicos fazendo-os aparecer como figuras do mestre moderno, quando, de fato, estão a serviço do discurso do capitalista, que constitui, como mostra Lacan, em Televisão , o discurso dominante da nossa civilização, responsável por seu mal-estar.
O discurso do capitalista, que promove um endividamento progressivo do sujeito e uma alienação crescente ao Outro do apelo comercial, multiplica objetos imaginários de desejo. Por outro lado, condicionado pelo discurso da ciência, o futebol deixa de lado a dimensão do sujeito. Não há nada no próprio futebol, nem nas bases que os sustentam, que possa deter seus avanços.
Eis o outro aspecto que impele à formação de Comitês de Ética na tentativa de frear ou pelo menos canalizar o projeto científico que reduz o atleta a números, a estatísticas, a unidades de valor. Em conseqüência, o que se joga fora é o próprio sujeito.
Ao se tratar o atleta como objeto, há, por um lado, um jogador assujeitado ao discurso capitalista, transformando-o num consumidor de drogas e objeto da indústria do doping, e, por outro lado, o discurso da ciência reduzindo-o a um corpo a ser melhorado em busca da maestria esportiva.
É preciso, enfim, uma vivência mais humana do futebol em que o jogador, mais que objeto, seja o centro da atividade, o sujeito; para que ele mesmo possa entrar em campo ao seu favor.
Parabéns, sou psicanalista e adoro futebol. Uma bela metáfora da vida e deveríamos utilizá-la mais como meio de acesso a um saber que não se sabe! Persistam, como diria Lacan, ou bola pra frente, como diria um psicanalista que adora futebol…
Abraços
LEANDRO